Há pessoas que mudam de cargo. E há pessoas que, apesar de mudarem de cargo, parecem nunca mudar de discurso.
André Villas-Boas é um desses casos.
Hoje é presidente do FC Porto. Ontem foi
treinador do mesmo clube. E basta
recuar até 2010 para perceber que a obsessão contra o SL Benfica não nasceu
agora, nem apareceu por acaso.
Nas primeiras semanas
como treinador do FC Porto, Villas-Boas já encontrava tempo para falar do SL Benfica.
Em agosto de 2010, depois
de Jorge Jesus ter afirmado que o Benfica seria campeão, Villas-Boas respondeu
que as conferências de imprensa do Benfica eram “monólogos para um canal” e que
as mensagens eram fáceis de passar porque o treinador “nunca é confrontado com
perguntas”. A tal teoria da “imprensa do Sul”.
Poucas semanas depois, voltou ao ataque.
Quando Luís Filipe Vieira
criticou as arbitragens, Villas-Boas afirmou que, com a paragem do campeonato,
“era natural que as arbitragens fossem o entretenimento”.
Mas o tema dos árbitros
haveria de voltar várias vezes.
Em dezembro de 2010,
quando Jorge Jesus relacionou a diferença pontual entre Benfica e FC Porto com
os critérios na marcação de grandes penalidades, Villas-Boas respondeu que essa
questão era “um entretenimento”.
É curioso recordar isto hoje.
Porque em 2026, já
presidente do FC Porto, Villas-Boas continua a ter sonhos molhados com o SL
Benfica.
No editorial da revista Dragões
de agosto de 2026, Villas-Boas dedicou uma parte significativa do seu discurso
ao SL Benfica e a Pedro Proença.
Vilas Boas considerou
“cruel e desrespeitosa” a decisão de colocar o presidente da Federação
Portuguesa de Futebol na sexta fila da tribuna da Luz. Criticou o SL Benfica
por ter divulgado excertos de conversas privadas de Proença e classificou o
mapa dos lugares da tribuna como um “manifesto político”.
Mais importante ainda: Villas-Boas decidiu
assumir publicamente a defesa de Pedro Proença.
Não estamos, portanto,
perante uma simples opinião sobre protocolo. Estamos perante um presidente do
FC Porto que, perante uma polémica, escolheu atacar o SL Benfica e defender
Pedro Proença.
E aqui vale a pena recordar quem foi Pedro
Proença enquanto árbitro.
Por exemplo, a 2 de março
de 2012, SL Benfica e FC Porto encontraram-se na Luz. Pedro
Proença foi o árbitro. O FC Porto ganhou por 3-2, com o golo decisivo de Maicon
aos 87 minutos.
O problema?
O golo foi marcado em posição irregular. Até o Correio da Manhã descreveu o lance como um
golo marcado “em fora de jogo” e registou que a posição de Maicon era
irregular.
Também o Record, ao fazer
posteriormente o balanço das polémicas de Proença com o Benfica, identificou
nesse jogo duas situações particularmente contestadas: uma falta sobre Witsel
que esteve na origem do segundo golo portista e, sobretudo, o fora de jogo no
lance que decidiu o jogo.
É história documentada.
E há outro detalhe que
não deixa de ser curioso: nas duas últimas épocas em que Pedro Proença dirigiu
clássicos entre o SL Benfica e FC Porto, ambos terminaram com vitórias do FC
Porto e ambos tiveram impacto direto na luta pelo título.
Portanto, quando Villas-Boas
aparece hoje a defender Pedro Proença e a atacar o SL Benfica por causa da
forma como o recebeu na Luz, é legítimo recordar o passado.
É este o Villas-Boas que
alguns parecem ter esquecido. Alguns benfiquistas apelidaram-no de “lufada de
ar fresco”, quando venceu Pinto da Costa naquela representação que foram as eleições
do FC Porto.
O mesmo homem que hoje se
apresenta como alguém que quer renovar, modernizar e dignificar o futebol
português é o homem que, enquanto treinador do FC Porto, construiu uma parte
significativa do seu discurso público a atacar o SL Benfica.
Existe um padrão de
ligação entre Vilas Boas, o FC Porto e Pedro Proença: a hostilidade ao SL
Benfica. Proença ameaçou o SL Benfica na gravação divulgada há algumas semanas.
E há uma pergunta que
merece ser feita:
Mudou André Villas-Boas ou mudou apenas o
lugar onde está sentado?
Porque o cargo mudou. A
gravata mudou. O discurso institucional tornou-se mais elaborado.
Mas, quando aparece uma
oportunidade para atacar o SL Benfica, Vilas Boas não resiste e regressa ao
ódio visceral pelo nosso clube.
E é aqui que entra Pedro
Proença.
É perfeitamente legítimo Villas-Boas
defender quem entender. É perfeitamente legítimo considerar inadequado o lugar
atribuído ao presidente da FPF na tribuna da Luz.
Mas também é legítimo perguntar por que
razão a indignação é tão grande agora.
Sobretudo quando falamos
de Pedro Proença, um árbitro que durante anos esteve no centro de algumas das
maiores polémicas envolvendo SL Benfica e FC Porto. E isto acontece num momento
particularmente sensível.
Em janeiro de 2026, transitou em julgado a
decisão judicial que condenou o FC Porto no chamado caso dos emails, obrigando
a SAD portista a pagar ao Benfica 605.300,90 euros, acrescidos de juros e
custas.
O Conselho de Disciplina
da FPF tem desde 2017 um processo a decorrer sobre este tema, e mesmo apesar do
trânsito em julgado da decisão, continua em silêncio.
Basta colocar os factos
em cima da mesa.
Um treinador do FC Porto
que, em 2010 e 2011, atacava sistematicamente o SL Benfica.
Um presidente do FC Porto
que, em 2026, continua a utilizar o SL Benfica como alvo privilegiado do seu
discurso.
Um Pedro Proença que, enquanto árbitro,
esteve envolvido em decisões altamente polémicas em clássicos que terminaram
com vitórias do FC Porto.
E um Villas-Boas que,
perante a atual polémica, escolhe colocar-se inequivocamente do lado de Proença
e contra o SL Benfica.
Cada um que tire as suas conclusões.
Eu fico apenas com uma:
Há quem consiga mudar de presidente sem
conseguir mudar de rivalidade.
E talvez seja essa a
verdadeira essência de André Villas-Boas. Não é o homem novo que chegou para
romper com o passado. É o mesmo homem de sempre, agora sentado na cadeira de
presidente.
Agora tem um parceiro à
sua medida na FPF: Pedro Proença.



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