Confesso que foi sem qualquer surpresa que assisti ao anúncio da nova Superliga europeia, liderada pelos presidentes do Real Madrid, da Juventus e um dos Glazers, donos do Manchester United.
Além de que falamos muitas vezes sobre o tema aqui no NGB, bastava conversar com algumas pessoas que trabalham na UEFA para perceber que era uma questão de tempo até o anúncio.
Esta nova Superliga nada tem a ver com maior competitividade, melhor futebol ou sequer um retorno a um futebol com mais clubes a discutirem os títulos europeus, como aconteceu até à entrada da Lei Bosman.
Todos os que já víamos futebol sabíamos que enfrentar um Anderlecht, um Sparta de Praga ou um Steua de Bucareste, por exemplo, seria jogar contra algumas das melhores equipas europeias.
O que a Lei Bosman e a reformulação da Champions nos anos 2000 fizeram foi dar uma situação de privilégio aos países e clubes mais fortes, diminuindo as chances dos outros em conseguirem dar a mesma luta que deram até então.
Mas não contentes com esse estatuto, alguns clubes avançaram para a criação desta Superliga.
Na sua maioria, detidos por investidores alheios ao mundo do futebol que viram uma oportunidade de...fazer dinheiro.
Só que isto tudo está longe de ter os maus de um lado e os bons do outro. A UEFA passou os últimos quase 20 anos a fomentar a ganância sem fim de alguns dos maiores clubes europeus. Por isso é que nunca se viu qualquer grande clube ser devidamente penalizado por não cumprir o fair play financeiro ou por abordar jogadores com contrato de clubes de menor dimensão.
Muito menos a UEFA tomou a iniciativa de limitar os empresários vampiros de sugar o futebol em nome de comissões milionárias.
A falta de acção por parte da UEFA é parte da explicação de a maioria dos chamados clubes mais fortes terem plantéis caríssimos e estarem cheios de jogadores sem ambição. Nisso a UEFA partilha responsabilidades com os próprios clubes. Porquê?
Um jogador de vinte e poucos anos qualquer que chegue a um clube de topo dos "big five" ganha mais dinheiro por ano que alguns dos geniais que vimos jogar nos anos 90, por exemplo.
Os jogadores, com raras excepções, não se motivam com vitórias ou títulos, mas com contratos publicitários, com likes ou com campanhas de promoção pessoal. Jogam sem paixão, sem chama.
A proibição de espectadores nos estádios nivelou muito as diferenças entre esses clubes de maior poderio financeiro e os outros. É um dos desesperos dos "grandes". Jogam quase de igual para igual.
Juntamos a tudo isto as dívidas colossais acumuladas pela maioria destes clubes que estão na linha da frente da Superliga. Daí quererem esta competição que lhes dará uma fortuna por temporada, de forma vitalicia. Deixa de haver divisão com clubes ou federações. Tudo apenas para os clubes participantes, com os "fundadores" a deterem a fatia de leão.
Se olharmos com atenção para os 3 que tomam a dianteira, esta nova competição não tem como alvo o público europeu. Tem sim como alvo o público asiático e o do continente americano, à imagem do que é feito com o futebol americano e a NBA, por exemplo.
Será uma grande operação de marketing, que de futebol terá apenas uma pequena parte.
Será a transformação do jogo num espécie de Superbowl contínuo, liderado pelo americano Glazer e pelo presidente da Juventus Agnelli, cuja ligação aos EUA é enorme via a sua posição no antigo grupo FIAT.
Também não é por acaso que vemos entrarem, com 2 excepções, clubes representativos de grandes cidades europeias, aproveitanto essa rivalidade regional como chamariz para esta nova competição. Manchester, Madrid, Milão ou Londres serão o centro desta nova competição.
Penso que ainda muita coisa acontecerá até que tudo isto possa ou não ser implementado no terreno.
Mas não posso terminar este texto sem lembrar Rui Gomes da Silva, que mais uma vez estava certo.
Nos últimos 4 anos, RGS frisava em quase todas as suas intervenções a importância de o SL Benfica fazer uma equipa para a Europa, que lutasse por títulos, que estivesse nas decisões.
Rui Gomes da Silva explicou várias vezes que a UEFA iria reformular a Champions, mesmo sem notícias a comprovar esse facto.
Que estava no forja uma Superliga ou Superdivisão Europeia, em que o acesso seria por convite e que o dinheiro a distribuir seria uma fortuna destinada apenas a uma elite fundadora e aos seus convidados.
Acentuou a importância de estar na linha da frente do futebol europeu, para não ficar para trás de forma definitiva. Precisavamos de resultados desportivos europeus para sermos chamados para as decisões futuras do futebol europeu.
Várias vezes explicou como era importante termos um presidente presente na Europa, nas instituições e nos encontros dos grandes clubes europeus para discutir o futuro do futebol.
Não preciso lembrar as vezes que a Comunicação do SL Benfica e os seus avençados denegriram RGS e a sua ideia para o clube.
Até de bêbado o acusaram numa página do Expresso, por RGS achar que o SL Benfica podia voltar a sonhar com a Europa.
Também não preciso lembrar que de repente na campanha para as eleições afinal já todos queriam lutar pela Champions e pela Europa.
Rapidamente se viu com o PAOK os tais planos ambiciosos de Vieira ou dos que defendiam que era com Jorge Jesus que íamos lá.
Nos últimos meses, entre outras coisas, assistimos a:
- O regresso de Joaquim Oliveira como o dono do futebol português
- O regresso do controlo das instituições (principalmente a arbitragem) por parte dos andrades
- Contínuo sangramento financeiro imposto ao SL Benfica por empresários e intermediários
- Tentativa de uma centralização de direitos televisivos que tiram dinheiro ao SL Benfica para dar aos adversários, mas que nada fará pela competitividade do nosso futebol
- Ao esvaziamento contínuo da capacidade competitiva do SL Benfica, lutando pelo terceiro lugar
- À colocação do SL Benfica como um clube da terceira divisão Europeia, sem interessar ou contar para as movimentações dos grandes clubes
Várias vezes Rui Gomes da Silva, responsável por exemplo pela abordagem e negociação contrato com a Emirates, frisou que isto iria acontecer se nada fosse feito.
Quase que apetece dizer que a maioria dos benfiquistas merece o que está a acontecer.
Somos um clube irrelevante na Europa do futebol, visto apenas como um clube satélite de empresários.
Temos um presidente completamente irrelevante na Europa do futebol, quem nem um reles inglês fala, e que nos remeteu a esta irrelevância.
Estamos novamente com um passivo ao nível de 2010, e com um plantel sem jogadores de classe mundial.
Não foi este o caminho que escolheram para o SL Benfica? Foi, mas se muitos merecem o que está a acontecer, o clube não merece estar nas mãos de mercenários e nas mãos de sócios cegos ou de gente ávida de fazerem negócios em nome ou com o SL Benfica.
O SL Benfica merecia mais.

