O seguinte post é da autoria do benfiquista MP, a quem agradecemos pelo excelente contributo!
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Tempos houve em que no futebol, causava espanto a máxima: “hoje é verdade, amanhã é mentira”. O mundo acelerou para um registo pós-verdade e a máxima futebolística desactualizou-se. Hoje em dia a propaganda é cuspida a uma velocidade estonteante, cobrindo a verdade de uma espessa fumaça.
Em função das cores futebolísticas, descortinam-se facilmente algumas mentiras. Quem, entre os Benfiquistas, acredita por um segundo na seriedade de Bruno de Carvalho ou do seu ministro da propaganda, Saraiva? De igual forma, ninguém com coração encarnado dá qualquer crédito a queixumes dos Dragões Diário, sendo óbvias as tentativas de pressão do FCP.
Há zonas mais cinzentas, onde a verdade é difícil de distinguir da mentira para um Benfiquista. Dirá Luís Filipe Vieira a verdade? Ou até que ponto mente ele? E os comunicadores do Benfica na comunicação social? Serão sérios e com respeito pela verdade? Mesmo o Guerra? E o António Simões (a meu ver, um senhor!), entre uma pequena mentira conveniente para o Benfica e a admissão de uma verdade inconveniente, que escolherá?
O mundo mudou de preto e branco para cinzento. O romantismo de figuras como Toni, que não precisa de dobrar a espinha para ser respeitado, é um oásis no meio do deserto. No meio da mentira, torna-se difícil distrinçar a verdade, independentemente da cor clubística. Quando tudo o que se tem são opiniões e as mesmas são infectadas pela propaganda, em quem acreditar?
Há algo em que se pode acreditar: nos factos. Mas no tal mundo pós-verdade, a propaganda veste-se muitas vezes de facto e vai subrepticiamente insinuando-se no lugar do mesmo. Exemplo disso é a choradeira, o ano passado, pelo número de amarelos mostrados ao Maxi Pereira. Lembram-se? O que passou para o público foi que no Benfica os jogadores são protegidos.
António Tadeia, na altura, desmistificou isso. Mas no subconsciente das pessoas ficou a propaganda: no Benfica os jogadores levam menos amarelos.
No caso do Maxi é fácil verificar se leva mais amarelos no FCP que no Benfica. Os dados são
públicos. Analisando-os, obtém-se o gráfico seguinte, que mostra o número de amarelos mostrados ao Maxi a cada 10 jogos (ou, mais precisamente, a cada 900 minutos). O que se verifica é que o número de amarelos vistos no Porto, a cada 900 minutos, é aproximadamente os mesmos (um pouco menos) que os que viu nas últimas duas épocas no Benfica. Claro está, os números não mostram tudo: não reflectem o sistema de jogo, o número de faltas feitas pelo Maxi e, mais importante, quantos amarelos é que ele de facto devia ter levado. Mas desmentem a tese do FCP, de que Maxi levava menos amarelos no Benfica.
Para quem gosta de estatísticas, elas andam aí. Por exemplo,
aqui ou
aqui. Mas a verdade é que os factos são pouco apelativos. Em particular no mundo de futebol, cada adepto prefere escolher os seus. E isso é um terreno fértil para Saraivas e outros cuspidores de mentiras. O pior é que a influência da propaganda é real. Infiltra-se no subconsciente, quer seja dos amantes do futebol, quer seja dos árbitros. É uma guerra pelos corações e pelas mentes, de afã quase religioso. A curto prazo, pode trazer mais pessoas aos estádios. A longo prazo, como Bruno de Carvalho se vai agora começando a aperceber, os fanáticos mordem invariavelmente a mão que os alimentou.
Acredito piamente que a esmagadora maioria dos adeptos preferia um futebol em que pudesse ir a qualquer estádio, vestido de qualquer camisola, e não correr riscos nenhuns. Criaram-se mundos virtuais e artificiais, pejados de mentira, onde os adeptos fanáticos acreditam que apenas o seu clube é prejudicado e os outros beneficiados. Os meios de comunicação social alimentam ainda mais esta insanidade. E nós, a maioria silenciosa, vamo-nos deixando corromper. Primeiro aceitando os disparates que são ditos, mais tarde repetindo-os com convicção.
A pós-verdade chegou para ficar, pelo menos por uns tempos. Temos de conviver com ela, mas também de lhe resistir. A pouco e pouco, se a deixarmos, irá corroer tudo a que temos afecto. No futebol, resistir à mentira significa uma coisa: conhecer os factos. Nesse sentido, este blog tem dado grandes contributos. Como leitor, estou grato!
MP
P.S. Há dias saiu uma notícia, no Independent, que dizia que "
facts don't work".
Nesta guerra de propaganda, talvez isto seja de levar em conta. Não é com factos que se conquistam as pessoas. Mas é triste que assim seja.