Os tristes acontecimentos de ontem, infelizmente, pouco farão pelo combate ao verdadeiro racismo.
O verdadeiro racismo observa-se no dia a dia um pouco por todo lado. Felizmente em Portugal é residual quando comparado com outros países do mundo e mesmo europeus. Aliás, o racismo tem várias formas e por vezes não reflete a cor da pele mas sim o país de origem.
Daí que quem quer fazer do povo português um povo racista não é melhor que os que vomitam o tal ódio racista.
Não vejo quotas na Assembleia da República para deputados negros, por exemplo. Quem vê certos partidos andarem sempre com a “raça” na boca depois olha para as suas bancadas e não vê um deputado negro. Ou vê…um. Para amostra. E só agora…
Querer pegar no episódio de ontem e aplicá-lo como radiografia dos adeptos de futebol não só é perigoso como incendeia a sociedade civil.
Basta olhar para o que se passa em França ou na Inglaterra para entender o perigo de discursos de ódio de cada uma das barricadas. Nada mais errado!
Basta comparar com certos movimentos de adeptos de futebol em Itália, por exemplo, em que atacam qualquer tentativa de contratação de um jogador negro.
É o Vitória comparável? Ou qualquer clube português? Não me parece.
Como escrevi no meu post de ontem à noite, a única forma de combater o racismo é condenar todo e qualquer ato nesse sentido e não apenas parte deles.
A hipocrisia do FC Porto e dos seus dirigentes e adeptos “notáveis” é nesse ponto incrível. Em Setembro passado o que aconteceu no Estádio do Dragão com o Young Boys não mereceu por parte do FCP qualquer condenação ou acto de contrição.
Muito menos os crimes de ódio observados entre algumas claques com cânticos miseráveis ou com publicações do tipo desta abaixo têm merecido indignação geral de ninguém.
Pelo contrário, o treinador do FCP, um exemplo de boa educação e postura correcta, afirmou que não havia racismo em Portugal.
Nem ninguém veio pedir medidas quanto ao ódio exibido aos árbitros e adeptos do SL Benfica na semana passada. Se o boneco fosse negro, com uma forca no pescoço, seria mais grave?
Mas por vezes, a melhor forma de combater o racismo é ignorá-lo.
Por isso é que, percebendo que Marega podia estar ofendido e não ter condições psicológicas para continuar, teria feito muito mais pelo combate ao racismo que estaria a ser alvo se tivesse continuado em campo. Isso sim seria uma derrota para todos os que professam ser de uma raça melhor ou mais pura que outra.
Nelson Semedo, no mesmo estádio, foi assim que enfrentou esse problema. Não me recordo na altura de ninguém se preocupar com racismo em Portugal. Não li declarações de nenhum ministro, do presidente da FPF ou sequer do presidente da República.
Também quando Renato Sanches foi enxovalhado na praça pública com acusações de “martelar” a sua data de nascimento com o pretexto da raça, não li grandes indignações quanto a isso. Foi preciso publicarmos no NGB um documento oficial que encerrou essa mentira e esses ataques miseráveis.
Além do mais, olhar para o episódio envolvendo Marega como puro racismo é não saber o historial de ofensas entre o jogador e a claque do Vitória. É desconhecer que o que estava ali em causa não seria o facto de os adeptos serem propriamente racistas mas terem encontrado na ofensa racista a forma mais acutilante de insultarem alguém com quem têm uma relação de ódio.
Isto não desculpa minimamente a forma encontrada para ofender Marega, mas enquadra como tudo culminou em ofensas relacionadas com raça. Ódio clubístico que encontrou numa expressão racista a forma para atingir o “inimigo”.
O racismo que existe em Portugal, residual como me parece ser comparado com outras realidades, não poderá ser combatido enquanto se considerar que só um tipo de racismo merece ser combatido. O racismo é um crime de ódio tão grave como qualquer outro crime de ódio contra qualquer outro ser humano.
Se querem combater o ódio, então assumam esse combate total. Enquanto insistirem em apagar o fogo apenas de uma das divisões da casa, então nada farão por esse combate.
Uma nota final:
É lamentável como alguns estão a querer conotar o Sport Lisboa e Benfica com terceiros, só para atingirem objectivos políticos. Henrique Raposo do Expresso, que já ameaçou sair da internet no passado(que pena não ter saído), em vez de combater todos os fenómenos de ódio preferiu atacar o Sport Lisboa e Benfica.
Parece que todos temos de olhar da mesma maneira para os acontecimentos, como se de uma realidade única se tratasse.
Não os vejo combater o discurso de ódio contra brancos, amarelos ou negros noutras situações.
Muito menos pedir penas exemplares para outros crimes de gravidade extrema.
Tão importante como combater o verdadeiro racismo é combater a pedofilia, a violência contra as mulheres ou a pobreza miserável de muitos dos nossos idosos.
Ou será que uma mulher violada ou assassinada, uma criança abusada e filmada, ou um idoso a ter que passar fome um mês inteiro para pagar renda, luz e água é menos grave para estes notáveis que um jogador de futebol?
Será que para um partido político um jogador de futebol que tem a máquina de comunicação de um clube atrás de si vale mais que uma família destroçada por uma mulher assassinada? Ou uma criança abusada que vê o seu violador cumprir pena suspensa?
Grave, caros políticos, é ver as imagens de miséria de centenas de angolanos a viverem entre o lixo e os dejectos, fruto das acções de alguém que os senhores andaram a beijar o rabo anos a fio. Para isso não há coragem de pedir nada! Hipócritas caça-votos.